Crescer, evoluir e aprender
Se está a ler esta página, tomamos por certo que será provavelmente um adulto já formado. Já pensou o que fez de si a pessoa que é hoje? A ciência tem feito avanços brutais na investigação sobre a formação da vida, da evolução da espécie humana e sobre a evolução particular de cada um de nós, nos dias de hoje. Esta informação é fulcral procurarmos outras respostas: para a pedagogia, para a psicologia, para a medicina... para nos percebermos melhor e para ajudarmos as gerações vindouras a evouir, a ter um futuro melhor.
Sabemos que nesta página não poderemos abarcar todas as áreas desse estudo, pelo que nos iremos debruçar sobre o que conhecemos bem: o papel e poder do jogo no desenvolvimento humano. Os textos a incluir nesta página serão adicionados mensalmente, ao sabor do tema mensal em "debate". E como as "infâncias" representam as fases mais importantes no desenvolvimento do indivíduo, é por aí que vamos começar.
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Deixem-se de brincadeiras… portem-se como uns homenzinhos!
por Lília Pedro | lilia.pedro@pimpumplay.pt
São as palavras do pai do Guilherme e do João. O Guilherme tem onze anos e o seu irmão João está quase com três. Diluem-se em gargalhadas contínuas num jogo do gato e do rato pela casa, em que ora correm para apanhar, ora correm para fugir um do outro. É um jogo elementar, mas particularmente interessante nesta dinâmica familiar e considerando as idades dos dois “jogadores”. Para o João, para quem o mundo gira em torno de si, é vê-lo a correr para apanhar rapidamente o irmão, barafustando de vez em quando para que este corra mais devagar, para que se deixe apanhar; depois vem a recompensa: o elogio porque conseguiu correr e apanhá-lo (alcançou o objectivo, foi forte e não desistiu) e, melhor que isso, a inversão de papéis – o irmão mais velho a correr para o apanhar - uma corrida desenfreada, acompanhada pela sensação de que o “mano” vem atrás de si, que o quer apanhar, para lhe fazer as cócegas que faz sempre que termina a perseguição; corre, foge, consegue ir mais longe, mas invariavelmente é apanhado… e sabe bem. O Guilherme, por outro lado, entra no jogo. Ouvir as gargalhadas do João fá-lo ligar-se a ele (o que nem sempre foi fácil, atendendo que o João absorve quase todos os mimos e atenções dos pais); aliás, este jogo de “apanhada” é o primeiro ponto de ligação com este irmão mais novo, que praticamente ainda não sabe brincar (muito menos ao nível dum rapaz de onze anos). Quando foge do João, controla a velocidade, deixa-se apanhar quando bem entende. Começa a compreender a linguagem do João e entra no jogo (é que o objectivo do jogo para o João é invariavelmente voltar à dinâmica Guilherme apanha João; a outra parte interessa pouco). Quando corre para apanhar o João, volta a controlar a velocidade, às vezes surpreende-o escondendo-se num canto e apanhando-o quando este está desprevenido. Depois vêem as cócegas e o Guilherme sente-se realmente importante por conseguir fazer rir o irmão.
Já foram cumpridas mais de 10 voltas completas à casa. O cansaço é evidente (já estão os dois a suar), mas o jogo continua. Num “golpe” desajeitado o Guilherme empurra involuntariamente o João, que cai. A queda foi pequena, mas o choro é inversamente proporcional. O Guilherme acorre para remendar o erro, pede desculpa. O João não compreende esta linguagem; está zangado e não consegue controlar os seus impulsos. Dá um pontapé no irmão, que magoa. Continua a tentar bater. O Guilherme dá um grito – “Pára!” – e contém fisicamente o irmão, sem intenção de o magoar. O pai ouve a choradeira e gritaria e vem ver o que se passa. Separa os dois irmãos. O João agarra-se ao pai a chorar e a balbuciar “Foi o Gui…”; o pai abraça-o. O Guilherme faz logo cara feia (“vai ficar com o mimo do pai!”), mas o pai dá-lhe a palavra, reconhecendo a sua “autoridade” perante o irmão: “O João ia a correr e eu toquei-lhe e ele caiu… mas foi sem querer… e depois fui pedir-lhe desculpa e ele começou a bater-me.”. Por esta altura o João já se acalmou. O pai senta-o no seu joelho, mas agora sem o abraçar, tentando que se vire e confronte o irmão: “Foi isso que se passou João?”. Não há resposta - o João ainda não consegue passar o episódio e as emoções para o mundo das palavras. “Se não há resposta, quero que peçam desculpa um ao outro, para resolvermos o problema e irmos jantar” – diz o pai. “Mas eu não fiz nad…” – diz o Guilherme, que é abruptamente interrompido pelo pai: “Não quero mais conversas… o João ficou zangado contigo, por isso deves pedir-lhe desculpa e dizer-lhe que não querias magoá-lo; foi um acidente. E o João tem que pedir desculpa porque tem que aprender que quando se está zangado não se pode começar a bater nas pessoas… porque bater magoa… tu gostas que te batam João?”. João começa de novo a chorar (mais ligeiro), e tapa a cara com o braço. O pai repete a pergunta e o João finalmente responde, abanando a cabeça, sinalizando um “Não” (talvez se tenha lembrado que realmente dói… e que não é agradável). O Guilherme toma então a iniciativa e diz “Desculpa mano, não te queria aleijar… Desculpas?”. O João não responde, mas quando o pai repete a pergunta do irmão ele lá sinaliza um “sim” com a cabeça. “Agora é a tua vez!” – diz o pai, tirando-lhe o braço da frente da cara. Ainda não consegue encarar o irmão e por isso baixa a cabeça. “Estamos à espera!” – diz o pai. “Chcupa…” – balbucia o João. Os braços do pai abraçam os dois. A paz retorna. “Vamos lavar as mãos… e jantar.”. O Guilherme toma a dianteira. O João dá uma ligeira corrida desafiante, apanha-o e começa a fugir. O Guilherme apanha-lhe logo a mão, olha para trás, para o pai e diz para o irmão: “Já chega Gui… o pai disse para irmos jantar!”. Seguem de mão dada.
Este é um exemplo muito ligeiro que ilustra a forma como o brincar pode ajudar a estruturar o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças. É óbvio que estas “brincadeiras” e estes episódios têm que se repetir várias vezes até que as crianças assimilem a forma de agir correcta (e a traduzam nos seus actos do dia-a-dia). É necessária persistência e, sobretudo, a disponibilidade dum adulto para mediar a brincadeira; ou seja, fazer as crianças pensar sobre o que se passou (coisa que elas têm muita dificuldade em fazer sozinhas – ou porque não conseguem mesmo, como é o caso das crianças no caso do João; ou porque o processo simbólico que permite traduzir toda a experiência – emoções incluídas – em palavras, ainda não está completamente claro na cabeça de miúdos na idade do Guilherme). Tanto o João como o Guilherme estão sem dúvida no caminho para se tornarem, “homenzinhos”… em fases diferentes, que se traduzem em capacidades distintas de analisar, pensar, resolver e agir sobre os “problemas” que ocorrem no seu dia-a-dia. O João está a começar a descobrir que os outros também sentem (a dor, o prazer, etc.), a aprender as regras para “estar socialmente” (que quando cumpridas representam o triunfo do pensamento sobre os impulsos) e a aprender que algumas palavras querem dizer o que estamos a sentir (a zanga, a tristeza ou a felicidade) e podem substituir acções menos adequadas. Por outro lado, o Guilherme está a aprender a tomar decisões para além do imediato (está a aprender a lidar com as consequências), está a refinar a sua linguagem não-verbal (a compreender a dos outros e a utilizar a sua duma forma intencional) e começa a integrar as subtilezas da escala de autoridade, que aliada a outros processos de desenvolvimento pessoal e social vai ajudá-lo a definir a sua situação no seio dos seus grupos sociais (como vai assumir o seu estatuto social).
Por mais simples que seja a “brincadeira”, ela tem sempre um significado, que expressa a forma como a criança se está a organizar. Como adultos e “educadores” cabe-nos o papel de estarmos atentos e disponíveis para ajudar as crianças a encontrar caminhos que as ajudem a ser jovens e adultos capazes de assumir as suas próprias vidas, tomando decisões fundamentadas. Afinal de contas, somos nós os ensaiadores das suas vidas… É que estas “brincadeiras” são muitas vezes os ensaios para o espectáculo das suas vidas de adulto.
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