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Ajuda Especializada

O canal de ajuda especializada foi criado para dar respostas a familiares e a técnicos que têm dúvidas sobre o desenvolvimento humano ou que procuram uma ajuda em relação a dicas e estratégias para lidar com comportamentos ou contextos pedagógicos e/ ou terapêuticos específicos.

Este canal é gerido apenas por técnicos especializados. As questões apresentadas estarão sempre visíveis para toda a comunidade, mas só será publicada a identidade do utilizador, se este manifestar esse desejo.

Por isso coloque-nos a sua questão via e-mail (clique aqui). Tentaremos dar uma resposta esclarecedora. Lembre-se que as suas dúvidas serão certamente um contributo importante para a reflexão de todos os utilizadores. 


Pesquise uma área ou assunto:  

Tema:  Problemas de comportamento e sucesso escolar
Pergunta:  Tenho um filho de 14 anos que não pára quieto na sala de aula. Está a prejudicá-lo muito; já o levei ao pedopsiquiatra. Não é bem aceite pelos colegas. Está num curso de CEF de jardineiro, numa escola com muitos miúdos problemáticos. Tem tido vários problemas de comportamento e os colegas gozam-no. Em casa também não pára quieto. Será que deveria estar no Ensino Especialisado? Gostava de saber mais sobre doenças mentais.

Resposta: 

Cara mãe,

Em primeiro lugar deixe-me felicitá-la por ter tomado a iniciativa de contactar um especialista (neste caso, o pedopsiquiatra); de facto a nossa experiência mostra-nos que muitos pais têm grandes dificuldades em aceitar que comportamentos estranhos dos seus filhos possam corresponder a verdadeiros problemas e com isso adiam o colocar da questão ao seu médico de família ou a um especialista que pode, de uma forma objectiva e cientificamente sustentada, contribuir para a compreensão e resolução de problemas como os que nos descreveu. Esse é um erro e um estigma que todos temos que combater, para que possamos olhar e trabalhar na resolução destes problemas, logo que são detectados (quanto mais cedo se intervém, maior é a probabilidade de sucesso dessa intervenção).

Em segundo lugar, parece-me importante destacar o papel que a escola aparentemente já tem na procura de soluções para o seu filho: o facto de ter ingressado num curso CEF é já uma tentativa de encontrar alternativas de formação e posterior integração sócio-profissional, essenciais para a sua vida adulta. Mas colocou-nos duas questões. Vamos tentar respondê-las por pontos. Na primeira questão pediu-nos informações sobre doenças mentais.

Antes de mais, temos que deixar bem claro que é impossível falarmos especificamente do caso do seu filho, pois não temos informações suficientes para avaliar objectivamente a situação. No entanto, com as informações que nos facultou tentaremos fazer uma revisão do que sabemos sobre doenças mentais, na perspectiva de a ajudar a reflectir sobre o problema do seu filho.

Importa também esclarecer que uma doença mental habitualmente não é a consequência directa de apenas um factor ou um acontecimento na vida de uma pessoa. Pode ser espoletada por um destes, mas é grande parte das vezes condicionada por um conjunto de variáveis que têm a ver: com a condição orgânica da pessoa (associada ao seu desenvolvimento biológico, neste caso particular, sobretudo com o seu desenvolvimento mental - desde a neurobiologia das emoções, à estruturação da inteligência); com a sua história de vida e personalidade (que define factores de risco ou de resiliência – capacidade para enfrentar os problemas por si próprio); e ainda com o que acontece à sua volta, as suas relações e a forma como o contexto age sobre o seu problema. Poderá haver por isso muitos factores a contribuir para o problema, o que torna o estudo destas doenças complexo, mas, por outro lado, abre possibilidades de reabilitação por vezes muito interessantes.

Do que sabemos, o seu filho é um jovem que revela comportamentos de grande agitação, com implicações no seu desempenho escolar e na forma de estar quer com os colegas, quer mesmo com a família. Obviamente esta agitação tem uma explicação e reflecte um estado mental, que parece fugir ao controlo do seu filho, de forma continuada em diversos ambientes. De um modo geral o nosso cérebro funciona como um gigante e complexo controlador de informação: a informação que regula os mecanismos básicos do nosso organismo, a informação que recebemos do exterior através dos nossos sentidos (que tem que ser filtrada e se organiza em padrões específicos que variam de indivíduo para indivíduo, moldados pela sua história pessoal) e a informação que transmitimos aos outros e ao mundo através das nossas acções. Imagine um computador: o teclado é onde se introduz a informação, a caixa do computador é onde essa informação se processa e a impressora é por onde a informação sai quando queremos apresentar algum trabalho… ora, se uma das partes do computador não estiver a funcionar em acordo com as restantes é muito provável que o resultado final (a impressão) não seja perfeito. O mesmo acontece com o ser humano: por razões diversas, por vezes perde-se o controlo sobre estes fluxos de informação (ou partes), com repercussões na consciência que temos sobre as coisas que acontecem à nossa volta, e/ ou na capacidade de aprender e/ ou de desempenhar determinadas funções na vida quotidiana e/ ou no comportamento – que é o que parece estar a acontecer com o seu filho. Ou seja, cria-se um desajuste entre a pessoa e o meio que a rodeia. Quando esse desajuste acontece de uma forma prolongada no tempo, podemos então falar em doença, o que equivale a dizer que pessoa já tem muitas dificuldades em conseguir, por ela própria, voltar a tomar controlo de todo este fluxo de informação. Obviamente há doenças graves e doenças menos graves.

No entanto parece-nos que o factor mais importante não é a doença em si, mas o que é que a pessoa, a sua família e a comunidade podem fazer para ultrapassar ou pelo menos minorar/ controlar os sintomas que a manifestam. No caso do seu filho, há dois aspectos que não ficaram claros na sua descrição e que são essenciais para a nossa reflexão: Quando é que este comportamento começou (foi sempre assim ou começou a revelar estes problemas numa data específica)? Aconteceu alguma coisa na vida do seu filho que pense poder ter desencadeado este problema?

Não obstante esta informação, há ainda outras questões que devem ser colocadas:

• Tem ou teve complicações clínicas significativas? – Episódios ou estados que possam ter tido implicações neurológicas, como traumatismos craneanos, epilepsia, etc.).
• Há historial de doença mental ou situações semelhantes à do seu filho na família?
• O seu filho tem consciência do problema? – Percebe o que se passa com ele e tem uma perspectiva crítica sobre o assunto.
• Tem comportamentos violentos/ agressivos? – Comportamentos impulsivos de agressividade, que revelem pouca capacidade de perceber os danos que pode provocar nos outros (físicos e psicológicos).
• Há situações específicas que o façam ficar mais agitado? Por exemplo, estar dentro de um espaço fechado, ser contrariado, ser gozado, etc.
• Adopta comportamentos estranhos/ bizarros? – Por exemplo falar sozinho ou fazer movimentos repetitivos com uma ou várias partes do corpo.
• Revela capacidade de resolução de problemas e é capaz de insistir na procura de alternativas para resolver um problema? – Competências de aprendizagem e para lidar racionalmente com os seus próprios problemas.
• Consegue concentrar-se para realizar algum tipo de tarefas?
• Consome drogas ou álcool em excesso? – Comportamentos de risco que possam provocar ou aumentar alterações de comportamento.
• Viveu alguma situação traumática?
• Tem amigos? – Grupo social que funcione como rede de suporte.
• A escola tem conhecimento concreto sobre o problema? Foram feitas avaliações psicológicas que determinem as suas competências cognitivas e sociais? Há algum relatório médico que descreva clinicamente o problema? – Informação objectiva que tente explicar o que se passa.
• É acompanhado por algum técnico de saúde? Está a fazer alguma terapia? Toma medicação?

Importa assim perceber o que poderá estar na origem dos comportamentos que o seu filho apresenta, e que factores em torno deste os podem aumentar (tornar ainda mais complicados) ou atenuar (facilitar-lhe a vida e possibilitar-lhe alguma mudança de comportamento). Por outras palavras, parece-nos sobretudo importante perceber como é que o problema se manifesta – embora não tenhamos dúvidas que é essencial defini-lo clinicamente (ou seja, definir um diagnóstico médico). E as questões que colocámos servem para a ajudar a reflectir, juntamente com a equipa de técnicos que estão a acompanhar o seu filho, sobre o tipo de problema é que ele está a atravessar, e sobretudo como se deve planear a intervenção futura. Neste campo há aspectos-chave que devem então ser pensados, começando desde logo na forma como o seu filho vê o problema. Por vezes verificamos uma tendência nos pais, e nos adultos em geral, em evitar falar abertamente com os filhos quando surgem comportamentos fora do habitual e ainda mais em falar com eles sobre possíveis complicações de saúde mental que possam ter. Parece-nos um erro. Especialmente com indivíduos que tenham capacidade de perceber minimamente o que se passa na sua vida. Imagine que um dia saía à pressa para o trabalho com os chinelos de andar por casa. Toda a gente que encontrava na rua se ria de si, mas você não conseguia perceber o que se passava. No entanto de certeza que iria perceber que algo estava mal; talvez até identificasse o problema, mas já não tivesse maneira de o resolver, preferindo assim tentar disfarçar, fingir que não era nada consigo. Ora esta atitude não lhe iria resolver o problema: esconder os pés não lhe traria os seus sapatos de sair à rua. Ora, pegando neste exemplo parece-nos que o mesmo acontece com muitos outros problemas da nossa vida. No caso do seu filho, parece-nos importante que com a ajuda de um técnico de referência que o acompanhe, possam discutir abertamente o seu problema, para que ele sinta que alguém o compreende e, sobretudo, que alguém o quer ajudar.

Depois, se o problema já tem um nome – um diagnóstico médico (presumimos que o pedopsiquiatra que consultou o seu filho vos tenha falado nisso), parece-nos importante que o grupo de colegas/ amigos da escola também o conheça. Aliás, directa ou indirectamente o grupo já sabe que existe um problema, mas na sua ignorância provavelmente opta por gozar, discriminar e/ ou provavelmente provocar o seu filho. É uma reacção natural que resulta da ignorância. Mais uma vez parece-nos importante que, com o consentimento do seu filho (depois de uma conversa esclarecedora), e com o recurso aos técnicos que o estão a acompanhar, possa haver uma reunião de turma para debater o problema. Falando-se abertamente do problema haverão certamente colegas que vão continuar a gozar e a provocar, mas haverão certamente outros que vão tentar compreender melhor o seu filho e mesmo tentar ajudá-lo, contribuindo para a sua integração e aceitação num grupo. Cria-se assim uma rede de suporte e desenvolve-se o sentimento de pertença ao grupo, essencial para o seu bem-estar e tranquilidade – todos queremos “pertencer” a alguém ou a qualquer coisa!

Paralelamente é fundamental que todas as pessoas que lidam directamente com o seu filho percebam o que se passa com ele. Não se trata de o fazer passar pelo “coitadinho” que tem “problemas”. Trata-se apenas de esclarecer as pessoas, preveni-las para a razão de ser de certos comportamentos. Imagine que encontrava um amigo seu na rua a chorar. Certamente que a sua atitude para com o seu amigo iria ser tanto melhor quanto maior fosse o seu conhecimento sobre a razão do choro (por exemplo, poderia reconfortá-lo se ele tivesse perdido alguém que amava, ou levá-lo ao hospital se ele tivesse um problema de saúde do seu conhecimento). No caso do seu filho, o objectivo é o mesmo: preparar quem está à sua volta para perceber o seu comportamento e, sobretudo, para reagir de forma preventiva. Ou seja, numa situação em que ele esteja muito agitado dentro da sala de aula, se o professor ou um colega perceberem o que se está a passar, podem ajudá-lo a recompor-se, recuperar a calma, ou encontrar uma alternativa para evitar um comportamento ainda mais desadequado. Por isso pensamos que é fundamental reunir o grupo de técnicos da escola, com a família e, preferencialmente um técnico de saúde que esteja a par do problema, para que possam esclarecer-se todas as dúvidas.

De seguida é necessário preparar um plano; que é o mesmo que dizer: “Sabemos qual é o problema, mas não vamos ficar de braços cruzados à espera que se resolva sozinho ou que alguém o resolva por nós. Vamos tomar a iniciativa de mudança!”. O que é que se pode fazer? Em primeiro lugar, qual é a vocação do seu filho? Ou o que é que o faz sentir bem? É possível transportar esse gosto para o seu currículo na escola? Ou há alguma associação ou instituição na comunidade onde ela possa encontrar esse tipo de actividade? A formação é sem dúvida essencial. Os cursos CEF têm uma dinâmica de ensino protegido e individualizado e, para além disso, dão a possibilidade de fazer estágios em empresas ou na comunidade, o que é um factor muito importante quer para a integração dos jovens no mercado de trabalho (no caminho da sua autonomia), quer para a sua realização pessoal (com o reconhecimento da sua utilidade para a sociedade). Mas é também importante que possa encontrar actividades alternativas, que preencham os seus tempos livres e que possam ser uma forma tranquila de aliviar o seu filho da possível tensão do dia de trabalho na escola.

O médico receitou algum tipo de medicação? Se sim, é importante mostrar ao seu filho o porquê da medicação, os benefícios e também as possíveis contra-indicações (para que saiba exactamente com o que contar). Por norma a toma de comprimidos não é bem aceite pelos jovens (nem por vezes pelos pais). No entanto devem ser esclarecidas todas as dúvidas sobre a medicação com o médico que a prescreveu ou com o médico de família, que são as pessoas que melhor podem explicar o porquê da necessidade de se tomar determinada medicação.

Na escola há também adaptações que se podem fazer. Como é o que o seu filho aprende melhor? A ouvir as matérias? Com apontamentos escritos? Ele presta atenção às aulas? Há possibilidade de o colocar junto aos professores nas aulas? Há possibilidade de se definir um professor-tutor (um professor que o ajude a estruturar o estudo, que verifica em que estado está a sua aprendizagem e o ajuda a pensar e a resolver os problemas que surjam na escola). Os professores podem fazer um esforço para adaptar os materiais mais importantes de cada matéria. É também importante definir metas realistas para o sucesso escolar do seu filho; ou seja, se tiver dificuldades a matemática, o objectivo não pode ser “resolver equações do 3º grau”, mas poderá passar por resolver problemas matemáticos que tenham a ver com o seu dia-a-dia. É importante que isto seja discutido com ele e que se defina um sistema de recompensa (que não tem que ser uma prenda material; pode ser simplesmente conceder acesso a qualquer coisa que ele goste, como por exemplo ficar na rua até mais tarde, ou poder ir uma tarde ao cinema, etc.) – ou seja, define-se uma meta, que vai exigir esforço e esse esforço será recompensado caso a meta seja atingida.

Questionou-nos sobre a possibilidade de o seu filho ingressar no Ensino Especial (presumimos que quando escreveu “Ensino Especializado” quisesse ter escrito “Ensino Especial”). Essa é uma decisão que deve resultar de uma avaliação dos técnicos da escola. Mais uma vez afirmamos que os cursos CEF nos parecem ter uma estrutura interessante de ensino, com dinâmicas mais individualizadas, aulas mais apoiadas e ainda outros técnicos que acompanham os alunos e os ajudam a estruturar o seu estudo e a sua vida (habitualmente existe um psicólogo na equipa). Queremos com isto dizer que a dinâmica de ensino-aprendizagem é já bastante privilegiada em relação aos cursos regulares. Por isso sugiro-lhe que pergunte aos técnicos da escola como é que o seu filho está a evoluir no curso. Ouça-os e coloque-lhes questões para esclarecer as suas dúvidas. No fundo tudo isto são ideias que visam sobretudo perceber o comportamento do seu filho, torná-lo mais consciente aos seus olhos e fazê-lo acreditar, bem como todas as pessoas que estão à sua volta, que há mais nele do que a agitação ou as dificuldades de aprendizagem ou os comportamentos desadequados na escola; essa é apenas uma parte – que poderá ser o resultado de uma doença – que não representa o todo que ele é.

Mudar comportamentos é uma tarefa árdua, prolongada e que exige uma grande dedicação, coragem e empenho, sobretudo da pessoa que necessita mudar. Para mudar tem que haver uma consciência do problema e sobretudo tem que haver um plano bem traçado, que englobe as pessoas mais presentes na vida do seu filho. Mantenha a esperança, e sobretudo o “norte”. Da nossa experiência, os pais podem servir também como pontes de ligação e reflexão entre as várias pessoas que estão à volta do caso. Não tenha receio de colocar questões - à escola, ao médico de família, ao médico pedopsiquiatra – mesmo que lhe pareçam ingénuas; e exija tranquilamente que se ouça o seu conhecimento de mãe.


Tema:  Síndrome de Asperger - do diagnóstico à intervenção
Pergunta:  Ando no Pedopsiquiatra com o meu Filho de 6 anos. Não compreendo porque é que lá dizem que o menino apresenta características do Síndrome de Asperger, mas que é impossível dar um diagnóstico correcto para todas as pessoas que tenham Asperger. O meu filho tem 6 anos. Desde pequenino que ele tem demonstrado algumas diferenças em relação aos outros meninos de idade igual, ao início pensámos que seriam mimos ou simplesmente ele era assim, mas que passava. Organiza brinquedos; se alguém lhe tira um boneco da ordem ele enerva-se. Tem momentos que parece que está ausente, mas apercebe-se de tudo o que o rodeia. Houve uma altura que chegou a ter 5 tiques diferentes. Não tolera bem mudanças na nossa casa e dá por mudanças na casa dos outros. Decora todas as coisas pelas quais tem interesse, planetas, corpo humano, mas não consegue decorar o nome dos colegas. Tem que se ter cuidado com aquilo que lhe dizemos pois é muito sensível. Como não brinca como os outros meninos não se entende com eles. Diz que os meninos na escola são inimigos. Tem muitos medos e fixação pela morte. Aos 2 anos e meio teve um irmão; só o aceitou quando este já tinha 1 ano, não lhe querendo tocar sequer. Mas só há coisa de 2 anos é que tive a iniciativa de procurar ajuda.

Resposta: 

Cara mãe,

Cabe-nos em primeiro lugar, e mais uma vez, deixar bem claro que a nossa função e o nosso objectivo não é o de discutir diagnósticos, mas sim o de reflectir sobre possíveis alternativas para promover o desenvolvimento humano, interpretando as pistas deixadas pelas descrições que recebemos, associadas, neste caso, à definição dum quadro clínico (Síndrome de Asperger). Há também outros assuntos que nos expõe e que não podem ser abordados numa rubrica deste género, sem conhecer a criança, como seja a questão dos medos. No entanto, vamos tentar abordar o caso respondendo à sua questão central, mas tentando também contribuir para a reflexão dos leitores sobre formas de intervenção para a resolução de alguns dos problemas descritos.

Da nossa experiência, em termos generalistas, um diagnóstico resulta dum estudo objectivo de diversas variáveis do foro comportamental, físico, cognitivo e social, que se traduz no agrupamento de sintomas (manifestações da doença) e condições (estados de organização interna do indivíduo), numa designação patológica (o nome que se dá à doença); ou seja, se o indivíduo reunir um conjunto de factores descritos para uma patologia, presume-se que padeça dessa patologia. No entanto, quando falamos de patologias do foro “mental”, comportamental, a missão de categorizar e definir com certezas absolutas a “doença” é bastante complicada; isto acontece por várias razões, mas a mais significativa reside, pensamos, no facto de estarmos a lidar com perturbações do desenvolvimento sobre as quais ainda não se descobriu um significado ou tradução biológica clara; ou seja, se no caso de uma constipação sabemos que o organismo está a ser atacado por um vírus, ou numa doença cardíaca conseguimos observar anomalias nos tecidos ou no funcionamento do coração, no caso de Perturbações como o Síndroma de Asperger não há ainda um desencadeante claro, nem existe uma estrutura ou descrição objectiva da sua organização “física” (como é que ela afecta, por exemplo, o cérebro do doente), que ajude os técnicos a perceber e a combater o problema.

Mas há muitas pistas. Sabemos que no caso do Síndrome de Asperger se evidenciam sobretudo (entre outras) as dificuldades no plano social, da regulação dos mecanismos da atenção e, muitas vezes dos mecanismos de auto-regulação emocional/ comportamental – que aliás acabam por ser descritas no seu texto, em relação ao seu filho. Estes mecanismos são pontos-chave no desenvolvimento humano, desempenhando funções vitais na organização psíquica do indivíduo, como Ser que analisa, integra e pensa sobre as suas experiências; se relaciona com o Mundo e com os Outros; e cria. Prestar atenção ao que ocorre à nossa volta e ser capaz de focar em estímulos diversos; relacionar-se e conseguir pensar fora da esfera da sua própria identidade (conseguir descentrar o pensamento de si próprio, da sua existência); e conseguir dominar as respostas impulsivas (regulação emocional); são então funções fulcrais que definem em grande parte a capacidade que temos de perceber e de nos adaptarmos ao Mundo que nos rodeia.

Sabemos então que um dos problemas com este tipo de diagnóstico é que se verifica que muitas das perturbações/ doenças mentais acabam por partilhar ou misturar estas características (com outras mais específicas), gerando muitas vezes quadros clínicos difíceis de avaliar. E isto é tão mais real, quanto mais jovens forem os doentes. Numa criança com 4/ 6 anos – idade em que corpo e mente se desenvolvem de forma impressionante – nem sempre é fácil discriminar entre o que é imaturidade e perturbação do desenvolvimento, ou mesmo perceber que factores são mais relevantes no desenvolvimento da criança numa determinada fase da sua vida: por um lado há tanta coisa a acontecer no organismo humano, tantos sistemas que estão a “aprender” a sincronizar-se e, por outro, há inúmeras experiências novas a acontecer na sua vida, todas a contribuir dalguma forma para o desenvolvimento da criança… umas de forma positiva, outras de forma negativa. Acresce que o Síndrome de Asperger se encontra numa “linha” de perturbações do desenvolvimento, designada das Perturbações do Espectro do Autismo, que essencialmente descreve a progressiva severidade da Síndrome, baseada na intensidade dos sintomas (dos que já descrevemos e de outros associados, à medida que a perturbação se torna mais severa); neste “Espectro”, o Síndrome de Asperger encontra-se na extremidade mais “funcional”, o que na prática quer dizer que pessoas com esta Perturbação revelam competências para desenvolver aprendizagens, ou ainda, revelam capacidade adaptativa que lhes pode permitir desenvolver-se e ter uma vida relativamente “normal”, em sociedade.

Isto leva-nos ao propósito máximo do diagnóstico, que é o de compreender a pessoa - o seu filho - para a partir daí tentar estruturar formas de o ajudar a crescer, a desenvolver-se de forma equilibrada, respeitando quem ele é, sem descurar a necessidade de o fazer sentir e de lhe ilustrar formas de resolver os problemas de se crescer, numa “sociedade” difícil de entender – de uma forma mais objectiva e sistematizada do que seria de esperar para uma criança sem os problemas do seu filho. A sua descrição foi clara: o problema existe, tem manifestações reais, com implicações negativas no dia-a-dia do seu filho (no desempenho escolar, na relação com os pares, e até na relação com a família). Sendo pouco provável que deixem de existir (mesmo que o diagnóstico possa mudar ao longo do tempo diz-nos a experiência que este tipo de quadro clínico evolui positivamente, mas não “desaparece”), parece-nos que o mais adequado é aprender/ ensinar a lidar com os problemas/ dificuldades, a contorná-los de forma a dar à criança as ferramentas que ela necessita para se conseguir adaptar às necessidades de Existir em sociedade. A verdade é que muitas vezes parece que as pessoas com este tipo de problemas conseguem estar bem consigo próprias, ser “felizes”: têm os seus interesses, que vão alimentando; aparentam ter prazer com alguns tipos de interacções com pessoas e por vezes com objectos específicos; habitualmente têm boas capacidades cognitivas... Mas parece-nos que este é apenas um bem-estar aparente, que esconde uma fragilidade interna expressa de cada vez que o interesse individual colide com uma incapacidade e com as necessidades de viver em sociedade. Na prática não importa, por exemplo, “programar” a criança para partilhar uma brincadeira, mas sim de lhe mostrar os benefícios de partilhar (p. ex. ter acesso a outros brinquedos); não importa chamar a atenção para o comportamento desadequado quando há uma birra “incontrolável”, mas sentir, perceber e discutir as consequências das birras em todos os envolvidos e, sobretudo, descobrir com a criança formas construtivas de superar o estado de descontrolo emocional.

É por tudo isto que estas pessoas precisam de ajuda especializada, especialmente quando são crianças e estão a definir o seu caminho de vida. O objectivo não é apagar ou mesmo mudar quem o seu filho é, mas mostrar-lhe como lidar com as suas próprias dificuldades, tornando-o uma pessoa mais capaz de definir e enfrentar os desafios previsíveis duma criança com a sua idade… e dum futuro adulto independente e feliz! Se já procurou ajuda há cerca de dois anos, é provável que o seu filho seja acompanhado por técnicos com formação especializada. À partida, a psicomotricidade e/ ou a psicologia, são áreas de intervenção que fazem sentido pois procuram desenvolver a consciência do indivíduo, despertando-o para a necessidade e para as possibilidades de resolução de problemas. De qualquer forma julgamos ser importante que um projecto terapêutico assente nas três áreas que começámos por descrever: competências sociais, regulação dos mecanismos da atenção e dos mecanismos de auto-regulação emocional/ comportamental. Como é óbvio cada projecto deve ser delineado em acordo com as características específicas de cada criança. No entanto podemos lançar algumas dicas para reflexão sobre aspectos que genericamente consideramos importantes abordar na interacção com crianças com Síndrome de Asperger.

Já abordámos a questão das competências sociais, mas importa ressalvar o papel fundamental da família e da escola neste processo. Mais uma vez, crianças com este tipo de perturbação têm dificuldades em compreender a dinâmica social, em perceber o porquê dos eventos que ocorrem à sua volta por vezes irem contra os seus desejos e vontades. Há por isso que explicar e discutir com a criança os porquês, mostrar-lhes com clareza as consequências de cada acto, em si e nos outros – a sua dificuldade não é tanto perceber “sentimentos” no geral, mas sim percebê-los nos outros; é sobretudo necessário ajudá-la a antecipar acontecimentos possivelmente desorganizadores (mudanças nas suas rotinas, alterações a eventos previamente combinados, etc.) e dar-lhe ferramentas para lidar com eles no futuro. A escola tem outro papel que nos parece fundamental que é, para além de continuar este “trabalho” que descrevemos anteriormente, desenvolver no grupo/ turma uma dinâmica facilitadora (e não facilitista) da participação da criança em actividades de grande e pequeno grupo. Somos da opinião que o problema deve ser abordado abertamente dentro da turma, para que todos possam compreender comportamentos, respeitá-los, mas que ao mesmo tempo se estimulem cumplicidades nos elementos do grupo no sentido de ajudar a criança a perceber como se deve/ pode orientar na dinâmica social (a supervisão e, sobretudo, a mediação do adulto são aspectos essenciais).

No que diz respeito aos episódios de descontrolo emocional – quer isso signifique uma birra porque a criança foi contrariada, quer isso signifique uma resposta desregulada a um estímulo específico – importa perceber que mais do que uma idiossincrasia ou uma vontade muito marcada de aceder a algo, estes momentos revelam, sobretudo, uma dificuldade estruturante da criança em se reorganizar emocional/ cognitivamente. Neste sentido há dois momentos a considerar, implicando cada um uma abordagem distinta. No momento em que a crise está instalada, o adulto deve ajudar a criança a centrar-se nas alterações que o descontrolo implica no seu corpo, para a partir daqui “estudar” com ela formas de conter o descontrolo (há algumas descrições que apontam para a necessidade de sentir pressão sobre o seu próprio corpo, como forma de atingir um estado de auto-regulação, mas de qualquer forma parece-nos sempre importante testar alternativas e perguntar posteriormente à criança como se sentiu); nos momentos posteriores à crise, importa sobretudo analisar com a criança as consequências, mais uma vez, primeiro nela própria e posteriormente nas pessoas importantes que a rodeiam e depois ajudá-la a antecipar possíveis situações desencadeantes de crise no futuro (no sentido de que a criança possa progressivamente aprender a prevenir autonomamente estes episódios).

E finalmente há a questão dos interesses “obsessivos” sobre temas ou dinâmicas específicas, que estão muitas vezes associados às descrições de défice de concentração e atenção em actividades fora do seu interesse. No nosso entendimento estes interesses devem ser interpretados como algo de positivo na criança: representam algo que os serena, que os ajuda a organizar-se e que mantém, até um certo ponto, um nível de curiosidade e de investimento pessoal importante – tão mais importante quanto for possível generalizá-lo para outras áreas. Recordamos, neste sentido, uma criança que acompanhámos há alguns anos e que começou a despertar o interesse para a disciplina de história quando a professora se lembrou de incluir os bonecos que o aluno obsessivamente adorava, como personagens dum episódio da história romana. Queremos com isto ilustrar que estes interesses (mesmo que por vezes obsessivos) devem ter lugar no dia-a-dia da criança, servindo também para a cativar para outros interesses e actividades importantes para o seu desenvolvimento. E isto é igualmente válido numa dinâmica mais directiva, como por exemplo na negociação de participação noutras actividades: “Tu queres brincar com os carrinhos, mas para isso primeiro tens que terminar os TPC, porque são importantes para aprenderes as coisas que a professora ensinou na escola.”.

Cara mãe, esperamos tê-la esclarecido, mas sobretudo contribuído para a sua reflexão sobre possibilidades para ajudar o seu filho a crescer de forma equilibrada. Tenha sempre em mente, que para além do diagnóstico há uma criança com virtudes e dificuldades, como qualquer um de nós. A nossa experiência diz-nos que o bom senso de ser mãe/ pai supera quaisquer descrições técnicas. Questione o médico do seu filho e os técnicos que o acompanham e procure ter sempre uma perspectiva crítica, de análise e reflexão sobre os comportamentos que verifica. Escute o seu filho e procure, em conjunto com ele, formas de resolver cada problema ou dificuldade.





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